A Terceira Expedição de Goldstein
Partimos a 14 de Setembro de Flümflüffgeel na Noruega. A temperatura era de -15 graus centígrados e a humidade do ar rondava os 0%. Era já a terceira vez que Goldstein tentava atingir o Pólo Norte e estávamos todos entusiasmados com a perspectiva de ser esta a expedição que, finalmente, retombaria em sucesso.
Olaf Goldstein nasceu a 7 de Outubro de 1932 em Umbeerstedt na Suécia. No dia após o seu nascimento mostrou imediatamente capacidades de liderança discordando do relatório médico e assinando ele próprio a alta clínica, tendo dispensando à saída um dos porteiros do hospital por se ter esquecido de abotoar um dos botões do casaco, infringindo assim os protocolos de indumentária. Aos 8 anos começou a revelar interesse por expedições marítimas e aos 12 planeou a sua primeira viagem ao Pólo Norte. Frustrado com a falta de entusiasmo do governo sueco em apoiar adolescentes na organização de expedições suicidas, Goldstein fecha-se no seu quarto e escreve o seu primeiro livro. Um ensaio de 220 páginas intitulado “Dêem-me o dinheiro para ir ao Pólo Norte seus cabrões!” o que lhe valeu um Pulitzer anos mais tarde. Sem apoios, sem trenó e sem namorada, Goldstein decide ir sozinho ao cume do mundo, mas sem passe social chega à estação dos correios e sucumbe ao cansaço. Com o passar dos anos Olaf Goldstein torna-se uma figura de relevo na sociedade sueca. Licenciado em filosofia e psicologia surpreende o mundo com uma míriade de publicações por entre as quais se destacam – “A crítica da crítica”, “A crónica da crítica”, “A crítica da razão crónica”, “Kant e outros idiotas” e “Raios me partam se eu não vou ao Pólo Norte!” este último o mais aclamado, deixando transparecer uma crescente obsessão por uma viagem ao topo do mundo. É durante este período que organiza a segunda expedição. A nata da sociedade sueca regojiza perante a hipótese de acompanhar o “génio” Goldstein naquele que seria o seu momento de maior triunfo, e assim Olaf reúne a sua equipa. Por entre três psicólogos, dois poetas, um pintor impressionista e um anarquista espanhol, Goldstein consegue uma equipa coesa e pronta para qualquer eventualidade, no entanto, ao esquecer a inclusão de um guia, Goldstein acaba por apanhar um barco para Tavoy e fica um mês de quarentena numa prisão birmanesa. É durante este exílio forçado que Olaf escreve o seu mais famoso e laureado trabalho, “Foda-se, estou de quarentena numa prisão birmanesa com um anarquista espanhol!”. Goldstein regressa à Suécia um herói e determinado a organizar uma derradeira expedição. Foi neste período que conheci o “génio” Olaf Goldstein. Eu era repórter num diário de média tiragem quando Goldstein me abordou com a proposta de o acompanhar ao Pólo Norte. Exerceria as funções de cronista e cozinheiro. Aceitei prontamente. O relato que vão ler, compreende as anotações que fiz durante a expedição e sãoum impressionante documento de dor, coragem e glória que, ainda assim, dificilmente fará jus à verdadeira natureza dos acontecimentos e ao homem que os protagonizou.
Diário de Expedição
13 de Setembro – Apanhámos o autocarro para Flümflüffgeel às 8:35, estava frio.
Parámos num Snack-Bar norueguês para comer (não tive de cozinhar).
14 de Setembro – A temperatura em Flümflüffgeel é de –15 graus, a humidade do ar ronda os 0%. Estamos entusiasmados com a possibilidade de ser esta a expedição que, finalmente, retombará em sucesso. Esperamos o barco que nos levará para norte. Fiz sandes.
15 de Setembro – O barco ainda não chegou. Alguns membros da expedição riem de mim nas costas, ignoro-os porque sei que sou bonito. Fiz arroz de cabidela (ninguém repetiu).
16 de Setembro – O senhor do barco não nos quer deixar entrar a bordo. Goldstein teve de lhe garantir que nenhum de nós era anarquista ou espanhol. Ainda há arroz de cabidela.
17 de Setembro – O geólogo Pablo Pantalones foi deixado num iceberg com metade dos membros da tripulação. Deixei-lhes o resto do arroz de cabidela. O comandante exige que participemos nas tarefas de bordo, no entanto proibiu-me de me aproximar da cozinha. Não fiz nada.
18 de Setembro – Atingimos a primeira escala do nosso destino, o planalto de Norgvordomord. Desembarcámos e seguimos agora a pé. A maioria dos cães preferiram ficar no barco por isso só pudémos usar os trenós nas descidas.
Inspirado pelo branco da paisagem, decidi fazer bolo de natas mas como não tinha natas usei neve. Todos notaram a diferença.
19 de Setembro – Está frio. Três dos cães que nos acompanharam voltaram para o barco com metade das provisões e a resmungar. Goldstein desconfia que são anarquistas. Fiz moelas.
20 de Setembro – Continua frio. As provisões estão a acabar. Avistámos um grupo de pinguins . Alguns membros da expedição sugeriram que fizesse cones de neve. Todos pensam que sou estúpido. Já só há presunto.
21 de Setembro – Está mais frio ainda. Fui escolhido para acompanhar dois colegas numa caça ao pinguim. Avistámos um pequeno grupo e atacámos, mas apareceram pinguins maiores e tivemos de fugir. Um pinguim gigante apanhou um colega com um tentáculo enorme e arrastou-o para uma toca. Não sabia que os pinguins viviam em tocas. Lá fiz os cones de neve.
22 de Setembro – Estou farto do frio. Os dois cães que nos sobravam comeram-se um ao outro. Sobrou uma cauda mas quando me aproximei para a agarrar assustou-se e fugiu a ganir. Estou muito infeliz. Deixei-me dormir a chorar.
23 de Setembro – As lágrimas congelaram e agora tenho a almofada agarrada à cabeça. Vi um peixe congelado através do gelo. Pensei em fazer um buraco para o apanhar mas tive medo que afundássemos. Goldstein disse que amanhã atingimos o Pólo. Não como há dois dias.
24 de Setembro – Afinal não atingimos o Pólo. Goldstein está muito aborrecido. Construímos um abrigo no meio da neve para evitar que morrêssemos de frio. Não resultou. Por volta da meia-noite morremos todos de frio. Fiz canapés.
Nenhum comentário:
Postar um comentário