sábado, 21 de janeiro de 2012


A Terceira Expedição de Goldstein



Partimos a 14 de Setembro de Flümflüffgeel na Noruega. A temperatura era de -15 graus centígrados e a humidade do ar rondava os 0%. Era já a terceira vez que Goldstein tentava atingir o Pólo Norte e estávamos todos entusiasmados com a perspectiva de ser esta a expedição que, finalmente, retombaria em sucesso.
Olaf Goldstein nasceu a 7 de Outubro de 1932 em Umbeerstedt na Suécia. No dia após o seu nascimento mostrou imediatamente capacidades de liderança discordando do relatório médico e assinando ele próprio a alta clínica, tendo dispensando à saída um dos porteiros do hospital por se ter esquecido de abotoar um dos botões do casaco, infringindo assim os protocolos de indumentária. Aos 8 anos começou a revelar interesse por expedições marítimas e aos 12 planeou a sua primeira viagem ao Pólo Norte. Frustrado com a falta de entusiasmo do governo sueco em apoiar adolescentes na organização de expedições suicidas, Goldstein fecha-se no seu quarto e escreve o seu primeiro livro. Um ensaio de 220 páginas intitulado “Dêem-me o dinheiro para ir ao Pólo Norte seus cabrões!” o que lhe valeu um Pulitzer anos mais tarde. Sem apoios, sem trenó e sem namorada, Goldstein decide ir sozinho ao cume do mundo, mas sem passe social chega à estação dos correios e sucumbe ao cansaço. Com o passar dos anos Olaf Goldstein torna-se uma figura de relevo na sociedade sueca. Licenciado em filosofia e psicologia surpreende o mundo com uma míriade de publicações por entre as quais se destacam – “A crítica da crítica”, “A crónica da crítica”, “A crítica da razão crónica”, “Kant e outros idiotas” e “Raios me partam se eu não vou ao Pólo Norte!” este último o mais aclamado, deixando transparecer uma crescente obsessão por uma viagem ao topo do mundo. É durante este período que organiza a segunda expedição. A nata da sociedade sueca regojiza perante a hipótese de acompanhar o “génio” Goldstein naquele que seria o seu momento de maior triunfo, e assim Olaf reúne a sua equipa. Por entre três psicólogos, dois poetas, um pintor impressionista e um anarquista espanhol, Goldstein consegue uma equipa coesa e pronta para qualquer eventualidade, no entanto, ao esquecer a inclusão de um guia, Goldstein acaba por apanhar um barco para Tavoy e fica um mês de quarentena numa prisão birmanesa. É durante este exílio forçado que Olaf escreve o seu mais famoso e laureado trabalho, “Foda-se, estou de quarentena numa prisão birmanesa com um anarquista espanhol!”. Goldstein regressa à Suécia um herói e determinado a organizar uma derradeira expedição. Foi neste período que conheci o “génio” Olaf Goldstein. Eu era repórter num diário de média tiragem quando Goldstein me abordou com a proposta de o acompanhar ao Pólo Norte. Exerceria as funções de cronista e cozinheiro. Aceitei prontamente. O relato que vão ler, compreende as anotações que fiz durante a expedição e sãoum impressionante documento de dor, coragem e glória que, ainda assim, dificilmente fará jus à verdadeira natureza dos acontecimentos e ao homem que os protagonizou.


Diário de Expedição

13 de Setembro – Apanhámos o autocarro para Flümflüffgeel às 8:35, estava frio.
Parámos num Snack-Bar norueguês para comer (não tive de cozinhar).

14 de Setembro – A temperatura em Flümflüffgeel é de –15 graus, a humidade do ar ronda os 0%. Estamos entusiasmados com a possibilidade de ser esta a expedição que, finalmente, retombará em sucesso. Esperamos o barco que nos levará para norte. Fiz sandes.

15 de Setembro – O barco ainda não chegou. Alguns membros da expedição riem de mim nas costas, ignoro-os porque sei que sou bonito. Fiz arroz de cabidela (ninguém repetiu).

16 de Setembro – O senhor do barco não nos quer deixar entrar a bordo. Goldstein teve de lhe garantir que nenhum de nós era anarquista ou espanhol. Ainda há arroz de cabidela.

17 de Setembro – O geólogo Pablo Pantalones foi deixado num iceberg com metade dos membros da tripulação. Deixei-lhes o resto do arroz de cabidela. O comandante exige que participemos nas tarefas de bordo, no entanto proibiu-me de me aproximar da cozinha. Não fiz nada.

18 de Setembro – Atingimos a primeira escala do nosso destino, o planalto de Norgvordomord. Desembarcámos e seguimos agora a pé. A maioria dos cães preferiram ficar no barco por isso só pudémos usar os trenós nas descidas.
Inspirado pelo branco da paisagem, decidi fazer bolo de natas mas como não tinha natas usei neve. Todos notaram a diferença.

19 de Setembro – Está frio. Três dos cães que nos acompanharam voltaram para o barco com metade das provisões e a resmungar. Goldstein desconfia que são anarquistas. Fiz moelas.

20 de Setembro – Continua frio. As provisões estão a acabar. Avistámos um grupo de pinguins . Alguns membros da expedição sugeriram que fizesse cones de neve. Todos pensam que sou estúpido. Já só há presunto.

21 de Setembro – Está mais frio ainda. Fui escolhido para acompanhar dois colegas numa caça ao pinguim. Avistámos um pequeno grupo e atacámos, mas apareceram pinguins maiores e tivemos de fugir. Um pinguim gigante apanhou um colega com um tentáculo enorme e arrastou-o para uma toca. Não sabia que os pinguins viviam em tocas. Lá fiz os cones de neve.

22 de Setembro – Estou farto do frio. Os dois cães que nos sobravam comeram-se um ao outro. Sobrou uma cauda mas quando me aproximei para a agarrar assustou-se e fugiu a ganir. Estou muito infeliz. Deixei-me dormir a chorar.

23 de Setembro – As lágrimas congelaram e agora tenho a almofada agarrada à cabeça. Vi um peixe congelado através do gelo. Pensei em fazer um buraco para o apanhar mas tive medo que afundássemos. Goldstein disse que amanhã atingimos o Pólo. Não como há dois dias.

24 de Setembro – Afinal não atingimos o Pólo. Goldstein está muito aborrecido. Construímos um abrigo no meio da neve para evitar que morrêssemos de frio. Não resultou. Por volta da meia-noite morremos todos de frio. Fiz canapés.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

É com gáudio, júbilo e alegria que nasce este espaço dedicado à mais nobre das actividades humanas. A escrita, pois sim, que a uns inspira grandes feitos e a outros irrita profundamente. Tentando viver a arte nesta dualidade floresce O Jasmim. Poeta popular, rei sem coroa, sujeito decente, um pouco mal arranjado até mas lavadinho, em especial nas 'partes' que é aí que se agarra a 'bicheza'.

O Jasmim habita a ténue fronteira entre o agora e o sempre...

Inaugura-se este quadro de emoções electrónicas em que o coração bate ao ritmo dos zeros e dos uns com uma obra já datada e que abriu caminho a uma avassaladora torrente de emoções e vida que aliás bem caracteriza a obra deste escritor que se refere a si próprio na terceira pessoa...


Josué da Montanha

Josué vivia na montanha. Nascera na montanha e toda a vida lá vivera. Sempre gostara de animais e tinha, desde pequeno, abraçado a profissão de pastor. Não por acaso, já que o seu pai era pastor, assim como o pai de seu pai e um avô de seu pai, que era filho de pastores. Josué era um pastor da montanha. Gostava de coisas simples e era um rapaz honesto e temente a Deus. Talvez por isso, Deus gostasse tanto de Josué. Gostava dos seus bons modos e da verdade com que as palavras brotavam da sua boca. O rapaz, no entanto, nunca pedira nada a Deus contentando-se em viver feliz com o pouco que tinha, trabalhando de sol a sol. Um dia, porém, enquanto se banhava na ribeira com os outros meninos pastores, Josué aprecebeu-se que, comparada com as dos seus colegas, a sua pila era, por uma margem considerável, a mais pequena, desejando mesmo ter uma como a de Bartolomeu o 'Africano'. De esse dia em diante nunca mais Josué foi o mesmo. Vivendo na angústia de ter um pirilau minúsculo acabou por descurar os seus deveres de pastor e as ovelhas começaram a adoecer e a morrer. Por todo o lado se dizia, - Lá vai Josué, o pobre infeliz! - Mas Josué não se importava. A única coisa que o preocupava era o seu pirolito. Deus, reparando na angústia que dilacerava o coração do seu pobre Josué, decidiu aparecer-lhe na pastagem sob a forma de um arbusto flamejante.

- Josué meu filho! - disse Deus.
- Sim meu pai - disse Josué, abrindo os braços na direcção dos céus.
- Onde estais?
- Aqui imbecil! - replicou o arbusto.
- Mas sois um arbusto flamejante! - constatou o idiota.
- É um truque que eu às vezes faço! - rematou o senhor.
- É muito giro! - disse Josué
- Pois é, mas agora cala-te e ouve-me Josué - disse o criador - Sei que sempre me serviste bem e nunca me pediste nada e por isso tenciono ajudar-te, não que me sinta na obrigação, já que sou Deus e só faço o que me dá na bolha, mas gosto de ti miúdo e seria uma pena se tivesses de ser um pilinhas durante o resto da vida. Por isso quero que arrumes as tuas coisas e que partas ao raiar do sol para Canãã. Aí visitarás Bethsendel o artesão e casarás com a sua filha mais velha Salomina.
- Mas Senhor, como se casará ela comigo se tenho um
raminho de salsa onde deveria ter a minha masculinidade? - perguntou o infeliz.
- Não sejas nhurro! - disse Deus - não vês que sou todo poderoso e que todos me obedecem?!.
E assim foi, Josué, aos primeiros raios da manhã, pegou na sua trouxa e partiu rumo a Canãã.

A travessia foi longa e cheia de perigos, atravessando desertos e montanhas, rios e oásis, planícies verdejantes e terras de ninguém, até que Josué chegou finalmente ao seu destino. A maravilhosa terra de Canãã. Terra de milagres e redenção. Terra de fé e oração. Terra que acolheu Abraão na sua peregrinação à terra prometida. Onde Caim enlouquecido chorou a morte do irmão. E onde Moisés levou ao limite a paciência do seu povo ao proferir as palavras – Acho que é já ali à frente!

Ao chegar a esta terra de espanto, Josué dirigiu-se à casa de Bethsendel, como Deus lhe havia ordenado, e bateu à porta, ao que uma voz respondeu do outro lado:
- Quem é?
- O meu nome é Josué, e venho em nome de Deus.
- Em nome de quem?
- De Deus.
- Huum... não estou a ver.
- Deus, nosso pai!
- É algum inquérito?
- Hã?
- É que se for um inquérito não estou interessado!
- Mas...
- Da última vez eram só umas perguntinhas e acabaram por me impingir um
revolucionário aspirador que ficou ali sem uso num canto.
- Eu sou um enviado divino!
- Isso é que dizem todos, e quando menos se espera, pimba!, um Cabaret-Set!
- Porque me gozas irmão?
- Porque é giro.
- Aaah! (suspiro de desespero)
- Acalma-te jovem, afinal quem é que o mandou bater-me à porta?
- Deus, o criador de todas as coisas, o senhor absoluto do universo porra!!!
- Ah, bom! Não é necessário perder a paciência meu bom amigo, sabe que nos
dias que correm... Entre por favor!
Josué abriu a enorme porta de madeira e entrou na loja de Bethsendel. O velho ancião recebeu Josué calorosamente, convidando-o imediatamente para jantar na companhia de suas filhas, ao que este acedeu prontamente. Durante o jantar, o velho, ao reparar no estado de ansiedade em que se encontrava o jovem pastor, decidiu quebrar o gelo:
- Dizes tu jovem que vens em nome de Deus!
- Sim, Deus quer que eu me case com a tua filha Salomina, e depressinha!
- Com Salomina casarás mas não antes de me fazeres um trabalho, mas por ora
partilhai o nosso pão, amanhã falaremos melhor.
Nessa noite Josué dormiu no estábulo, olhando as estrelas e sonhando com o seu novo pirilau e com as folias que este lhe proporcionaria.

Ao raiar do sol já Josué se encontrava à porta de Bethsendel, aguardando ansiosamente a tarefa que este lhe reservava. Por volta do meio-dia, Bethsendel abriu a velha porta de madeira de sua casa, espreguiçou-se e foi com espanto que deparou com Josué imóvel à beira do alpendre.
- Ainda andas aí?
- Cá estou à espera da tarefa que tens para mim, ó futuro sogro.
- Ah pois, a tarefa... Então olha, vais até ao cimo do Monte Sinai...
- Sim...?
- E atiras-te de cabeça cá para baixo. Pode ser?
- Bom...
- Se sobreviveres saberei que és o escolhido, senão a minha filha casará com
o filho do merceeiro que tem imenso dinheiro e uma pila muito mais
apresentável.
- Se essa é a tarefa que tens para mim, terei todo o gosto em realizá-la ó
futuro sogro!
- Boa! Fazes-me só mais um favor!
- Claro!
- Tenta fazer pontaria às pedras mais bicudas!
- Porquê?
- É uma tradição cá da terra.
Sem questionar a palavra de Bethsendel, Josué pôs-se imediatamente a caminho do Monte Sinai com o intuito de cumprir, sem demora alguma, a tarefa a que se tinha proposto.
A subida
foi àrdua e cheia de perigos mas, ao fim de dois dias, o jovem pastor atingiu ocume da majestosa montanha. Após beber alguns golos de àgua e fazer pontaria a uma ravina afiadíssima, Josué projectou-se no ar de braços abertos e peito cheio, bradando aos céus como um Demis Roussos ensandecido. No entanto, e para sua surpresa, Josué aprecebeu-se que ao invés de cair encontrava-se suspenso no ar. Aleluia!, gritou Josué. Abençoado seja o senhor! Na realidade a diminuta palhita do pastor ficara presa num piquito de um cacto impedindo a progressão
da queda. Aprecebendo-se do facto e ignorando a dor, Josué conseguiu libertar-se da sua prisão de espinhos prosseguindo a sua queda. Alguns metrosmais abaixo a sua pilinha voltou a fazer das suas, desta vez alojando-se numa reentrância rochosa, sustendo novamente a queda de Josué. Mais abaixo ainda foi a vez de se prender num arbustinho, e assim por diante até chegar ileso (ou
quase) à base da montanha. Ajoelhou-se, agradeceu a Deus (e à pilinha), e regressou o mais depressa que pode à casa de Bethsendel. Ao chegar à aldeia dasua prometida, reparou no alvoroço que tinha lugar na pequena Igrejita local.
Música a metro, comes e bebes, e a sua Salomina que se preparava para desposaro filho do merceeiro diante dos ilustres de Canãã. Josué precipitou-se para a igreja e gritou:
- Alto e pára o baile! Aqui ninguém casa com Salomina a não ser eu!
A multidão vira-se em espanto enquanto Bethsendel grita enraivecido:
- Pira-te daqui ó ranhoso, e leva o teu pifarito contigo, nunca casarás com
Salomina!
Nesse preciso momento um relâmpago desce dos céus, fulminando a cadeira onde se encontrava Bethsendel e deixando no seu lugar doze lindas pombinhas brancas que esvoaçaram pelas janelas deixando um leve travo a rosmaninho no ar. Todos os presentes se levantaram e aplaudiram entusiasticamente, seguindo-se ruidosos ‘bis’ e ‘eurekas’. Deus agradeceu, fez um gesto mágico, disse ‘zarabadin!’ e choveram bombons e outros docinhos para delícia dos presentes. Josué casou com Salomina, que libertou um efusivo - Ai que bom!, regressou à montanha e nunca mais se preocupou com as diminutas dimensões do seu pífaro. Com o passar dosanos teve dezenas de filhos, todos de tez mais escura, o que não pareceupreocupar Josué. Bartolomeu teve uma longa e feliz vida.