sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

É com gáudio, júbilo e alegria que nasce este espaço dedicado à mais nobre das actividades humanas. A escrita, pois sim, que a uns inspira grandes feitos e a outros irrita profundamente. Tentando viver a arte nesta dualidade floresce O Jasmim. Poeta popular, rei sem coroa, sujeito decente, um pouco mal arranjado até mas lavadinho, em especial nas 'partes' que é aí que se agarra a 'bicheza'.

O Jasmim habita a ténue fronteira entre o agora e o sempre...

Inaugura-se este quadro de emoções electrónicas em que o coração bate ao ritmo dos zeros e dos uns com uma obra já datada e que abriu caminho a uma avassaladora torrente de emoções e vida que aliás bem caracteriza a obra deste escritor que se refere a si próprio na terceira pessoa...


Josué da Montanha

Josué vivia na montanha. Nascera na montanha e toda a vida lá vivera. Sempre gostara de animais e tinha, desde pequeno, abraçado a profissão de pastor. Não por acaso, já que o seu pai era pastor, assim como o pai de seu pai e um avô de seu pai, que era filho de pastores. Josué era um pastor da montanha. Gostava de coisas simples e era um rapaz honesto e temente a Deus. Talvez por isso, Deus gostasse tanto de Josué. Gostava dos seus bons modos e da verdade com que as palavras brotavam da sua boca. O rapaz, no entanto, nunca pedira nada a Deus contentando-se em viver feliz com o pouco que tinha, trabalhando de sol a sol. Um dia, porém, enquanto se banhava na ribeira com os outros meninos pastores, Josué aprecebeu-se que, comparada com as dos seus colegas, a sua pila era, por uma margem considerável, a mais pequena, desejando mesmo ter uma como a de Bartolomeu o 'Africano'. De esse dia em diante nunca mais Josué foi o mesmo. Vivendo na angústia de ter um pirilau minúsculo acabou por descurar os seus deveres de pastor e as ovelhas começaram a adoecer e a morrer. Por todo o lado se dizia, - Lá vai Josué, o pobre infeliz! - Mas Josué não se importava. A única coisa que o preocupava era o seu pirolito. Deus, reparando na angústia que dilacerava o coração do seu pobre Josué, decidiu aparecer-lhe na pastagem sob a forma de um arbusto flamejante.

- Josué meu filho! - disse Deus.
- Sim meu pai - disse Josué, abrindo os braços na direcção dos céus.
- Onde estais?
- Aqui imbecil! - replicou o arbusto.
- Mas sois um arbusto flamejante! - constatou o idiota.
- É um truque que eu às vezes faço! - rematou o senhor.
- É muito giro! - disse Josué
- Pois é, mas agora cala-te e ouve-me Josué - disse o criador - Sei que sempre me serviste bem e nunca me pediste nada e por isso tenciono ajudar-te, não que me sinta na obrigação, já que sou Deus e só faço o que me dá na bolha, mas gosto de ti miúdo e seria uma pena se tivesses de ser um pilinhas durante o resto da vida. Por isso quero que arrumes as tuas coisas e que partas ao raiar do sol para Canãã. Aí visitarás Bethsendel o artesão e casarás com a sua filha mais velha Salomina.
- Mas Senhor, como se casará ela comigo se tenho um
raminho de salsa onde deveria ter a minha masculinidade? - perguntou o infeliz.
- Não sejas nhurro! - disse Deus - não vês que sou todo poderoso e que todos me obedecem?!.
E assim foi, Josué, aos primeiros raios da manhã, pegou na sua trouxa e partiu rumo a Canãã.

A travessia foi longa e cheia de perigos, atravessando desertos e montanhas, rios e oásis, planícies verdejantes e terras de ninguém, até que Josué chegou finalmente ao seu destino. A maravilhosa terra de Canãã. Terra de milagres e redenção. Terra de fé e oração. Terra que acolheu Abraão na sua peregrinação à terra prometida. Onde Caim enlouquecido chorou a morte do irmão. E onde Moisés levou ao limite a paciência do seu povo ao proferir as palavras – Acho que é já ali à frente!

Ao chegar a esta terra de espanto, Josué dirigiu-se à casa de Bethsendel, como Deus lhe havia ordenado, e bateu à porta, ao que uma voz respondeu do outro lado:
- Quem é?
- O meu nome é Josué, e venho em nome de Deus.
- Em nome de quem?
- De Deus.
- Huum... não estou a ver.
- Deus, nosso pai!
- É algum inquérito?
- Hã?
- É que se for um inquérito não estou interessado!
- Mas...
- Da última vez eram só umas perguntinhas e acabaram por me impingir um
revolucionário aspirador que ficou ali sem uso num canto.
- Eu sou um enviado divino!
- Isso é que dizem todos, e quando menos se espera, pimba!, um Cabaret-Set!
- Porque me gozas irmão?
- Porque é giro.
- Aaah! (suspiro de desespero)
- Acalma-te jovem, afinal quem é que o mandou bater-me à porta?
- Deus, o criador de todas as coisas, o senhor absoluto do universo porra!!!
- Ah, bom! Não é necessário perder a paciência meu bom amigo, sabe que nos
dias que correm... Entre por favor!
Josué abriu a enorme porta de madeira e entrou na loja de Bethsendel. O velho ancião recebeu Josué calorosamente, convidando-o imediatamente para jantar na companhia de suas filhas, ao que este acedeu prontamente. Durante o jantar, o velho, ao reparar no estado de ansiedade em que se encontrava o jovem pastor, decidiu quebrar o gelo:
- Dizes tu jovem que vens em nome de Deus!
- Sim, Deus quer que eu me case com a tua filha Salomina, e depressinha!
- Com Salomina casarás mas não antes de me fazeres um trabalho, mas por ora
partilhai o nosso pão, amanhã falaremos melhor.
Nessa noite Josué dormiu no estábulo, olhando as estrelas e sonhando com o seu novo pirilau e com as folias que este lhe proporcionaria.

Ao raiar do sol já Josué se encontrava à porta de Bethsendel, aguardando ansiosamente a tarefa que este lhe reservava. Por volta do meio-dia, Bethsendel abriu a velha porta de madeira de sua casa, espreguiçou-se e foi com espanto que deparou com Josué imóvel à beira do alpendre.
- Ainda andas aí?
- Cá estou à espera da tarefa que tens para mim, ó futuro sogro.
- Ah pois, a tarefa... Então olha, vais até ao cimo do Monte Sinai...
- Sim...?
- E atiras-te de cabeça cá para baixo. Pode ser?
- Bom...
- Se sobreviveres saberei que és o escolhido, senão a minha filha casará com
o filho do merceeiro que tem imenso dinheiro e uma pila muito mais
apresentável.
- Se essa é a tarefa que tens para mim, terei todo o gosto em realizá-la ó
futuro sogro!
- Boa! Fazes-me só mais um favor!
- Claro!
- Tenta fazer pontaria às pedras mais bicudas!
- Porquê?
- É uma tradição cá da terra.
Sem questionar a palavra de Bethsendel, Josué pôs-se imediatamente a caminho do Monte Sinai com o intuito de cumprir, sem demora alguma, a tarefa a que se tinha proposto.
A subida
foi àrdua e cheia de perigos mas, ao fim de dois dias, o jovem pastor atingiu ocume da majestosa montanha. Após beber alguns golos de àgua e fazer pontaria a uma ravina afiadíssima, Josué projectou-se no ar de braços abertos e peito cheio, bradando aos céus como um Demis Roussos ensandecido. No entanto, e para sua surpresa, Josué aprecebeu-se que ao invés de cair encontrava-se suspenso no ar. Aleluia!, gritou Josué. Abençoado seja o senhor! Na realidade a diminuta palhita do pastor ficara presa num piquito de um cacto impedindo a progressão
da queda. Aprecebendo-se do facto e ignorando a dor, Josué conseguiu libertar-se da sua prisão de espinhos prosseguindo a sua queda. Alguns metrosmais abaixo a sua pilinha voltou a fazer das suas, desta vez alojando-se numa reentrância rochosa, sustendo novamente a queda de Josué. Mais abaixo ainda foi a vez de se prender num arbustinho, e assim por diante até chegar ileso (ou
quase) à base da montanha. Ajoelhou-se, agradeceu a Deus (e à pilinha), e regressou o mais depressa que pode à casa de Bethsendel. Ao chegar à aldeia dasua prometida, reparou no alvoroço que tinha lugar na pequena Igrejita local.
Música a metro, comes e bebes, e a sua Salomina que se preparava para desposaro filho do merceeiro diante dos ilustres de Canãã. Josué precipitou-se para a igreja e gritou:
- Alto e pára o baile! Aqui ninguém casa com Salomina a não ser eu!
A multidão vira-se em espanto enquanto Bethsendel grita enraivecido:
- Pira-te daqui ó ranhoso, e leva o teu pifarito contigo, nunca casarás com
Salomina!
Nesse preciso momento um relâmpago desce dos céus, fulminando a cadeira onde se encontrava Bethsendel e deixando no seu lugar doze lindas pombinhas brancas que esvoaçaram pelas janelas deixando um leve travo a rosmaninho no ar. Todos os presentes se levantaram e aplaudiram entusiasticamente, seguindo-se ruidosos ‘bis’ e ‘eurekas’. Deus agradeceu, fez um gesto mágico, disse ‘zarabadin!’ e choveram bombons e outros docinhos para delícia dos presentes. Josué casou com Salomina, que libertou um efusivo - Ai que bom!, regressou à montanha e nunca mais se preocupou com as diminutas dimensões do seu pífaro. Com o passar dosanos teve dezenas de filhos, todos de tez mais escura, o que não pareceupreocupar Josué. Bartolomeu teve uma longa e feliz vida.

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